ALCINDO GUANABARA, um parente importante na história do jornalismo brasileiro

Ilustração: J. Bosco

Até bem pouco tempo pensava que era o único representante da família no jornalismo do lado paterno, mesmo não sendo formado na área escrevi alguns artigos, atuei como designer, ilustrador, infografista, chargista, caricaturista e quadrinista. Sou co-fundador do NbRepórter, onde tenho mais liberdade na produção de texto.

Graças a minha irmã, Rosana, que estuda a genealogia da família, descobrimos um ilustre parente em uma dessas pesquisas. Durante toda infância, nosso pai falava sobre um parente, não tão distante, que seria famoso. Falava do sobrenome, Guanabara, mas só ficava nisso. Até que recentemente minha irmã encontrou uma certidão de casamento dos nossos bisavós, onde tem a assinatura do padrinho da cerimônia, que era o irmão da Georgetta Guanabara, para nossa surpresa nosso tio-bisavô era o Alcindo Guanabara.


Registro de casamento de Georgetta Guanabara com Álvaro Augusto Lopes da Costa.



É muito fácil saber quem foi Alcindo Guanabara, basta colocar o nome no Google e vai aparecer muita informação sobre ele. Resumindo, o nosso tio-bisavô foi um Jornalista fantástico, que conseguiu sua primeira coluna no jornal Gazeta da Tarde de José do Patrocínio, após produzir sozinho todo material da edição posterior, durante uma greve dos jornalistas. Ele assinava como “Aranha Minor”. Nessa fase, foi um brilhante articulista em prol da Abolição. No mesmo ano, seu nome aparecia em vários jornais e revistas da cidade, assinando ora páginas de prosa, ora poesia e sonetos na Semana e na Vida Moderna.

Dirigiu o jornal escravocrata Novidades do Partido Conservador (motivado por problemas financeiros). Estavam com ele Moreira Sampaio, Artur Azevedo e, pouco depois, Olavo Bilac. Alcindo tinha 22 anos e já era um dos maiores jornalistas brasileiros. Publicava ali as suas “Teias de Aranha” (a seção assinada ”Aranha Minor”, que trouxe da Gazeta da Tarde) e também as “Notas políticas”, assinadas ”Nestor”, ambas cotidianas. Provocou também adversários, e entre estes, José do Patrocínio. Alcindo escrevia também trabalhos de outros gêneros, em crônicas assinadas com o pseudônimo “Marcelo“, críticas humorísticas assinadas por “Diabo Coxo“ e, Contos e Fantasias por “Mefisto“.

Fundou seu primeiro jornal em 1886, a Fanfarra, órgão acadêmico. Entre os colaboradores estava Olavo Bilac. Depois fundou a Tribuna, jornal de oposição a Prudente de Morais. Após, fundou A Nação, que durou pouco tempo, neste, desenvolveu a propaganda de um programa socialista. Colaborava em O Dia, onde publicou esplêndidas páginas literárias com o pseudônimo “Pangloss“.

Foi nomeado redator-chefe de O País, ali ficou até 1905. Na luta de Rui Barbosa contra Hermes da Fonseca, Alcindo Guanabara estava na Imprensa (jornal que ele fundou) fazendo a campanha do candidato de Pinheiro Machado. Foi o período menos feliz do meu tio-bisavô.

Autor de várias obras literárias, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número 19, que tem como patrono Joaquim Caetano.

Na vida política foi eleito deputado, logo após a proclamação da República, e participou da Assembleia Constituinte de 1891. Foi reeleito por vários mandatos, ficando no Congresso até 1911, por fim, senador pelo estado do Rio, em 1918. Mal iniciou o período dessa legislatura e veio a falecer aos 53 anos, a mesma idade que tenho hoje. Teve uma carreira política bastante agitada, controversa e atuante.



Constituição brasileira de 1891, página da assinatura de Alcindo Guanabara (quinta assinatura). Acervo Arquivo Nacional


Fico feliz em conhecer a história deste ilustre parente jornalista. Sem saber sigo passos semelhantes. Tenho me empenhado na busca por soluções que ajudem a categoria neste momento de transformação da profissão. Espero algum dia ser, também, reconhecido pelo meu esforço na busca por um jornalismo mais colaborativo.

Cícero Lopes

Jornalista, designer e empreendedor